A COMUNICAÇÃO NA GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS

Entenda o papel estratégico desta ferramenta na construção, no fortalecimento e na mudança de comportamento de cidadãos mais conscientes

Reportagem publicada na edição 8 da Revista ARes. Baixe aqui o pdf completo.

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A comunicação é um processo contínuo e essencial para a vida em sociedade. Quando utilizada com um objetivo definido e nas formas adequadas permite que as mensagens sejam melhor recebidas e compreendidas pelos destinatários. No setor de resíduos sólidos, especificamente, comunicar exige muito mais do que a execução de ações ou campanhas pontuais. É necessária uma comunicação conectada à educação ambiental a fim de possibilitar mudanças de atitudes para a transformação do meio ambiente.

Comunicar nesta área acaba sendo um imenso desafio. Não bastasse a alta conectividade e o predomínio das redes sociais, as empresas de comunicação se depararam também com o desafio de adaptação de um novo tipo de diálogo com o público, tendo como parâmetro o Plano de Gestão Integrado de Resíduos Sólidos (PGIRS), um dos mais importantes instrumentos da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

Na prática, os obstáculos são ainda maiores para se alcançar uma comunicação realmente assertiva, e isso, independentemente do tipo de campanha ou ação. “Hoje, por exemplo, dentro do perfil digital temos um público segmentado e muito mais crítico. É um perfil diferenciado. Antes, tínhamos um público de comunicação de massa. Veiculava-se um anúncio no meio da novela das oito, e hoje, apreocupação é falar com influenciadores. Há uma mudança radical e conceitual nisso”, analisa o professor do curso de Comunicação Social da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Alvaro Bufarah Junior. Por outro lado, a comunicação porta-a-porta não ficou para trás.

 “Hoje temos um público (perfil digital) segmentado e muito mais crítico. Antes, tínhamos um público de comunicação de massa. Veiculava- se um anúncio no meio da novela das oito, e hoje, a preocupação é falar com influenciadores.”

Nesse sentido, uma das estratégias adotadas pela Loga, por exemplo, é buscar lideranças locais como multiplicadores. “Como nem sempre há ‘musculatura’ para fazer a comunicação chegar a todos, apesar de termos equipes indo deporta-a-porta, buscamos nas comunidades pessoas de  liderança para participarem dos programas de conscientização ambiental. E conseguimos assim fazer uma abordagem bastante efetiva”, explica o diretor-presidente da Loga, Marcelo Gomes. Na Urbam, esse trabalho de conscientização ambiental também é valorizado. “Conversamos diretamente com os moradores e estendemos essa forma de comunicação a entidades, escolas, igrejas e palestras em empresas”, acrescenta a analista de comunicação da Urbam, Ana Lúcia Abranches.

Bufarah ressalta para esta busca por novos caminhos, novos formatos e possibilidades para se chegar ao público, sem esquecer a comunicação in loco. “É fato que hoje o  profissional de comunicação trabalha com perfil de dados da internet, com ferramentas de busca, etc., porém, não se pode fazer uma comunicação de gabinete. Ou seja, para uma comunicação de resíduos sólidos não basta pegar o perfil da comunidade para a qual se vai comunicar. É preciso conversar com aquele público para que ele se materialize e não seja apenas uma estatística. O problema é que hoje se trabalha com prazos muito apertados e isso passa a ser umluxo. Ao mesmo tempo, há também uma realidade de as agências estarem trabalhando no limite, com equipes muito reduzidas”.

PLANEJAMENTO

Para informar, debater ou envolver a sociedade em assuntos relacionados à gestão de resíduos, existem diversas alternativas. Porém, todas começam pelo planejamento. É a partir dele que se pode desenhar as estratégias, definir os meios, os investimentos adequados e a metodologia utilizada. “É importante também mapear possíveis cenários de mudanças, oportunidades e desafios, para assim, adaptá-los às estratégias e ações”, destaca o diretor-executivo da Cempre, André Vilhena. Quanto mais detalhado for esteprocesso de diagnóstico, melhor. Mas ele deve ser focado para que possa avançar.

Outro item relevante é a definição de público-alvo – algo que deve ser determinado com rigor, já que definir a sua segmentação acaba refletindo em uma dificuldade dentro das estruturas das empresas de comunicação, das agências ou do próprio cliente atendido. “Na mesma empresa vocêtem o CEO, que é o pai de família, que é o baby boomer. Tem o filho que também está nessa mesma estruturae é o X, e tem o neto que é um Y.  Ainda tem o Z, e o Alfa, que está chegando. Historicamente, do ponto de  vista da comunicação, talvez nunca tenhamos um momento tão diferenciado de diversidade de público em m espaço de tempo tão curto e com nichos tão diferentes. Sendo assim, ao mesmo tempo em que as empresas de comunicação têm que pensar no jovem que usa o Spotify, tem que lembrar que na outra ponta existe um senhor que saiu do pós-guerra e que tem uma visão de mundo muito peculiar”, sintetiza Bufarah.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Mesmo depois da implantação da PNRS ainda existem indivíduos que não realizam a coleta seletiva, não se importam com a destinação correta e, sequer, sabem qual a vida útil do plástico, do papel, do alumínio ou de outros resíduos da construção civil que possuem enorme  impacto ao meio ambiente. Para mudar esta realidade é preciso um trabalho muito grande de comunicação, mas também, de educação ambiental e do despertar da cidadania.

Dados do MEC apontam que 95% do ensino fundamental trabalha o tema meio ambiente no Brasil. Entretanto, algumas normas ainda não contemplam a inclusão da educação ambiental em todos os níveis de ensino. “Por isso, a educação sobre as práticas e conceitos ficam também, às vezes, a cargo das empresas ou instituições que, motivadas por estratégias de mercado ou legislação como a PNRS, promovem a educação ambiental”, esclarece a professora de Ética e Sustentabilidade em cursos de MBA Gestão Estratégica de Negócios, Pessoas e Projetos, Júnia Flávia de Carvalho.

“As empresas de comunicação têm que pensar no jovem que usa o Spotify, tem que lembrar que na outra ponta existe um senhor que saiu do pós-guerra e que tem uma visão de mundo muito peculiar”.

Nas instituições de ensino superior,no entanto, isso depende muito  de cada curso e de como são organizados. “As questões ambientais hoje, por obrigação do MEC, passaram a ser obrigatórias. Os cursos de Direito ou Engenharia, por exemplo, precisam incluí-las na matriz curricular”, esclarece o professor de Direito Político e Econômico da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Daniel Nagao.

As pessoas, infelizmente, não internalizam que o resíduo é de cada um e que elas deveriam sim, tomar para si o protagonismo nas questões relacionadas aos resíduos sólidos. “No Japão, por exemplo, você abre uma bala em uma loja, mas não acha lixeira. As pessoas andam com sacolas, depositam o resíduo e levam para casa para descartar corretamente. Isso se deve a um intenso trabalho de comunicação e de educação, e deveria passar também pelo ensino básico, pela educação em longo prazo, com disciplinas de educação ambiental e com a participação do poder público e de empresas que tratam os resíduos”, ressalta Gomes.

A tendência da relação entre a comunicação e a educação ambiental é se tornarem interdependentes, credita Júnia Flávia. “Pois ambas  são meios para a mudança de comportamento e para a preservação ambiental”.