RECICLAGEM também na CULTURA do CONSUMO

*Por Renault Castro (Artigo publicado na Edição 7 da Revista ARes – BAIXE AQUI)

Apenas uma em cada cinco cidades brasileiras implementou algum tipo de coleta seletiva de resíduos, segundo a pesquisa Ciclosoft, produzida pelo Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem). Um número muito baixo, considerando que já deveríamos ter extinguido os lixões há dois anos, como previa a lei que criou a Política Nacional de Resíduos Sólidos. A falta de coleta seletiva, claro, prolonga a extinção dos lixões.

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Apesar de o tema ser de extrema relevância, pouco ouviremos sobre isso no processo eleitoral. Infelizmente, não está na agenda dos candidatos que vão disputar os cargos de prefeito e vereadores em outubro. Poucos são os que abordarão, com sinceridade, a importância da coleta seletiva e da reciclagem para o bem-estar da sociedade,
do eleitor.

É que o assunto parece distante. Logística reversa e economia circular são expressões pouco compreendidas pela população, mesmo sendo o consumidor um elo dessa cadeia. A palavra sustentabilidade, por exemplo, só passou a ser um pouco mais observada há pouco mais de 20 anos, quando ocorreu no Brasil a Rio-92 (Conferência
das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento).

O tema, entretanto, está batendo à nossa porta. Aliás, já entrou. O impacto ambiental de nossas decisões de consumo está sentado à mesa, está na nossa garagem, no nosso guarda-roupa. Orienta nossas compras quando navegamos pela internet e quando assistimos ao telejornal. Está a nos dizer: sim, você também é responsável pelo
clima do planeta.

Para perceber isso, entretanto, é necessário algum estímulo. Ou desestímulo. A pesquisa Consumo Conscientedos Brasileiros 2016, realizada pelo SPC Brasil e pela Confederação Nacional dos Dirigente Lojistas (CNDL), aponta que “grande parte dos consumidores ainda prioriza atitudes ligadas aos aspectos financeiros de uma compra – o que se intensifica pelo momento de crise econômica em que o país atravessa”.

Segundo a pesquisa, 53,7% dos consumidores geralmente analisam produtos e marcas e, se o fabricante adotar práticas prejudiciais ao meio ambiente ou à sociedade, desistem da compra. Convenhamos, o percentual deveria ser maior. Olhando pelo outro lado da
moeda, significa que quase metade dos brasileiros não se importa se o que consomem prejudica o meio ambiente e a sociedade.

A maneira mais eficaz de alterar este cenário é, acreditamos, impactar positivamente o bolso do consumidor. Estimulá-lo, financeiramente, a adquirir comportamentos mais sustentáveis. Bens e produtos com menores impactos ambientais devem ter uma tributação diferenciada, de forma a estimular o seu consumo ou desestimular o consumo de bens e produtos com maiores impactos ambientais.

A Tributação Verde deveria ser uma solução permanente para induzir a economia de baixo carbono, mas é adotada apenas em questões pontuais. Não é uma política de governo, mesmo sendo prevista na Constituição. Em seu capítulo da Ordem Econômica e Financeira, artigo 170, a Constituição estabelece como um dos princípios a “defesa do
meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação”.

O ciclo do consumo e da produção pode, então, gerar uma economia circular. O consumidor exigindo bens e serviços de baixo impacto ambiental, estimulando soluções mais sustentáveis e mecanismos de coleta do resíduo provocado pelo consumo. Assim, cria-se viabilidade para o uso de materiais reciclados, que serão aproveitados
para produção de novos bens e serviços de baixo impacto.

Tomara que as expressões de economia verde até agora pouco compreendidas entrem de vez na pauta dos candidatos eleitos em outubro. A atitude certa nas políticas públicas locais pode contribuir para a adoção de medidas adequadas também na área federal.

*Presidente executivo da Abralatas (Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade), economista, formado pela Universidade de Brasília, MBA em direito pela FGV e mestre (M.Sc.) pela Universidade de Oxford, Inglaterra.