Engenharia Ambiental – Mercado de trabalho e principais desafios

Entrevista com Haroldo Mattos de Lemos*, que fala sobre as novas exigências do mercado e analisa questões ligadas à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)

ARes: Qual a situação atual do mercado de trabalho para o engenheiro ambiental?

Haroldo: O mercado atual não está bom para nenhuma profissão. Sempre que existe uma crise econômica, os governos tendem a cortar verbas primeiramente de áreas como cultura, meio ambiente, ciência e tecnologia. O mercado atual está difícil para engenheiros ambientais, porém, as oportunidades futuras são boas. Estou na área desde 1975, e desse período até hoje houve uma evolução muito grande no mundo e no Brasil sobre as questões ambientais. Antes, assuntos sobre meio ambiente, mudanças climáticas etc. não eram muito absorvidos pelas pessoas. Hoje, isso é completamente diferente. A sociedade como um todo e as grandes empresas, principalmente, estão convencidas de que a sustentabilidade é fundamental para a manutenção de um bom ambiente de negócios. Muitas empresas privadas são, atualmente, muito mais protagonistas do que o próprio governo. Elas planejam suas ações para daqui a 20, 30 anos, ou seja, elas chegaram à conclusão de que, se nada for feito agora, se continuarmos a empurrar a solução dos problemas sem planejamento, daqui a um tempo o ambiente para os negócios não será bom. Por outro lado, a maioria dos governos, inclusive o nosso, planeja suas ações apenas para as próximas eleições, ou seja, é um planejamento a curto prazo. No Brasil, por exemplo, não temos um plano nacional de desenvolvimento. Não sabemos para onde o país vai se dirigir. Diante dessa realidade, e, apesar das dificuldades atuais, o mercado de trabalho para o engenheiro ambiental é promissor, principalmente, depois que começarmos a sair da crise.

ARes: A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) veio exigir novos conhecimentos e habilidades do profissional? Quais? O perfil do profissional mudou por conta disso?

Haroldo: A grande questão que foi colocada, além da proibição de lixões e de suas transformações em aterros sanitários, é a questão da logística reversa que vai exigir dos fabricantes de determinados produtos a obrigação de recolhê-los ao fim de sua vida útil. Isso, é claro, exige novos conhecimentos e habilidades, ou seja, é um novo mercado para a engenharia ambiental. O conhecimento sobre a Avaliação do Ciclo de Vida do Produto (ACV) é uma coisa que o Brasil ainda está muito carente. A ISO, por exemplo, já tem normas internacionais sobre como fazê-la. É claro que deve ser realizada por profissionais especializados e baseada em banco de dados básicos, que, infelizmente, o país ainda não possui. Vale destacar também que, em função, principalmente, da logística reversa, houve a exigência de novos conhecimentos, sobretudo, dessa metodologia de avaliação do ACV. O engenheiro ambiental sempre foi treinado numa vasta amplidão de assuntos, contudo, para os profissionais trabalharem nessa área, precisam fazer uma especialização que, aqui no Brasil, temos na USP.

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ARes: Como as instituições de ensino devem se preparar para formar profissionais cada vez mais alinhados com a demanda de um mercado tão dinâmico, a exemplo da gestão de resíduos, com novas leis, acordos setoriais etc.?

Haroldo: A gestão de resíduos e, especialmente, a questão da logística reversa vão exigir que as instituições de ensino que formam profissionais de engenharia ambiental deem um pouco mais de atenção à metodologia da avaliação da ACV. Nós ainda estamos principiando nessa área, mas há outras nas quais as instituições de ensino têm que prestar atenção. Por exemplo, as consequências do aquecimento global, que é algo que nos atingirá muito diretamente e que vamos precisar de profissionais treinados tanto na mitigação quanto na adaptação, mesmo que a gente consiga não ultrapassar os 2 graus centígrados de aquecimento global. Já estão acontecendo os eventos climáticos extremos, como chuvas mais intensas, enchentes e secas cada vez mais prolongadas. Enfim, acredito que a mudança climática é outra área desse mercado, além de muito dinâmica, e que vai exigir uma preparação um pouco mais cuidadosa das instituições de ensino.

ARes: Como você enxerga o papel do engenheiro ambiental na construção de uma realidade mais sustentável e consciente?

Haroldo: O papel do engenheiro ambiental é muito importante, uma vez que estes são os maiores responsáveis pelas modificações em nosso ambiente, seja por meio de projetos, obras ou por equipamentos que constrói e usa. É um profissional muito importante para o nosso futuro, particularmente quanto à sustentabilidade da humanidade no planeta. Ele, cada vez mais, deve pensar e agir sobre a mudança climática, sobre a produção e o consumo sustentáveis, a redução de desperdícios, entre outros. Tudo isso é importantíssimo para a construção de uma sociedade mais sustentável.

[Leia a entrevista completa na Edição 6 da Revista ARes / Ful content here]

*Haroldo Mattos de Lemos é professor da FGV e presidente do Conselho Empresarial de Meio Ambiente e Sustentabilidade da ACRJ (Associação Comercial do Rio de Janeiro)