Câmera registra vida e decomposição debaixo da terra

“Este é um projeto para me ajudar a entender um pouco mais sobre o mundo abaixo de nossos pés. Tudo começou no final de 2013, com uma instalação-teste em um aquário contendo uma webcam enterrada no chão.” É assim que Josh Williams resume o Soil Cam, que, traduzido do inglês, seria algo como câmera do solo. Basicamente, ele desenvolveu uma técnica para filmar o que acontece debaixo da terra. As imagens são incríveis e nos fazem refletir não apenas sobre a decomposição da vida, como também sobre algumas questões cruciais relacionadas ao lixo no Brasil, como a compostagem e a gestão dos resíduos orgânicos que, no país, representam quase a metade do total de resíduos gerados.

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ARes – Qual foi sua motivação para começar esse projeto?

Josh – Curiosidade. Quando eu era jovem, cavava grandes buracos no quintal dos meus pais para ver se eu conseguia achar alguma coisa. Num determinado momento, eu pensei que poderia ser interessante colocar uma câmera no solo.

ARes – O que mais surpreendeu você ao ver o resultado das imagens?

Josh – A quantidade de atividade. Quando cavo um buraco e observo o solo, vejo alguns bichinhos se movendo, mas não dá para ver crescimento ou decomposição, porque isso acontece muito lentamente. Mas ao reproduzir sete dias de filme em poucos segundos, nota-se que o solo está em constante movimento e cheio de vida!

ARes – Sobre a decomposição, que conclusões você tirou? Isso lhe deu alguma revelação, uma forma diferente de pensar?

Josh – Eu aprecio e respeito mais o solo. Estou apenas começando a entender o quanto ele é importante para a vida.

ARes – Sua intenção foi mais artística ou o projeto tinha um enfoque de conscientização ambiental?

Josh – Um pouco dos dois. Começou como uma curiosidade, de querer ver o que acontecia lá embaixo. Mas ao montar o projeto e compartilhar os vídeos e as instruções de como fazer, espero que outras pessoas se conscientizem mais da importância do solo.

ARes – Você sabia que metade do lixo produzido no Brasil é orgânico (por exemplo, resíduos de alimentos)? E que o seu trabalho pode ser inspirador para muita gente, até mesmo para elaborar campanhas de compostagem?

Josh – Não, eu não sabia. Tem muito lixo no mundo e muitos de nós estamos muito desconectados disso. Até pouco tempo, eu nunca questionava aonde o meu lixo ia parar. Eu comecei, recentemente, a perguntar às pessoas à minha volta se elas sabiam para onde ele ia. Não me parece que alguém saiba, a menos que trabalhe com lixo ou resíduos!

ARes – Acredita que entender a vida sob a terra pode levar as pessoas a tomar mais cuidado com o meio ambiente e o planeta?

Josh – Acho que produzir informação (escrita, visual, sonora etc.) é sempre um bom primeiro passo. Há pouco tempo eu li um livro curto chamado Beyond Ecophobia (Muito além da ecofobia, em tradução livre), que fala da importância de uma educação significativa e do envolvimento das crianças em suas comunidades. Talvez se conseguíssemos mostrar-lhes como é a vida no solo natural se comparada à vida em um solo contaminado com lixo local?

ARes – Gostaria de filmar a decomposição de outras coisas?

Josh – O projeto continua em andamento, e todos os dias eu assisto a um vídeo sobre o que está acontecendo debaixo da terra. Daqui a algumas semanas, devo lançar um vídeo com resolução muito maior e com muito mais detalhes. Depois do inverno aqui no Michigan, espero começar um projeto de um ou dois anos sobre o ciclo de vida de uma folha.

ARes – Qual é o seu vídeo favorito? Quanto tempo levou para ser produzido?

Josh – Provavelmente este:

São uns 34 dias de filmagem. Eu gosto, porque dá para ver várias etapas da decomposição de uma folha enquanto, ao mesmo tempo, novas raízes de diferentes plantas se estendem para dentro da terra. Quando uma folha morre, milhares de outras criaturas minúsculas se alimentam dela. É incrível! É também um dos primeiros vídeos desse projeto, foi bastante surpreendente.

ARes – Qual é a sua profissão? Onde mora atualmente?

Josh – Ajudo a cuidar de uma makerspace, em Ann Arbor, Michigan, se chama Maker Works (http://www.maker-works.com). Ela ajuda a conectar pessoas com as ferramentas e o espaço para trabalhar nelas. É uma comunidade maravilhosa de pessoas que gostam de criar coisas e ajudar outras pessoas por meio da manufatura.

Mais: http://soilcam.blogspot.com.br/

 

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Camera records life and decay under the soil

This is a project to help me understand a little more about the world below us. All started in late 2013, with a pilot installation in a fish tank with a webcam buried in the ground”. This is how Josh Williams describes his Soil Cam initiative. Basically, he developed a technique to film what happens underground. The footage is amazing, and make us think not only about the decay of life, but also about some critical issues related to waste in Brazil, such as composting and organic waste management, which make almost half of the total waste produced in the country.

ARes – What was the motivation to start this project?

Josh – Curiosity, when I was young I dug huge holes in my parents’ yard to see what I could find. At some point in time I thought that it might be interesting to put a camera in the soil.

ARes – What surprised you when seeing the result of the images?

Josh – The amount of activity. When I dig a hole and look at the soil, I can see a few bugs moving, but I can’t see growth or decay because it happens too slowly. But when I play back 7 days of footage in just a few seconds I realize the soil is constantly moving and full of so much life!

ARes – What conclusions did you get on decomposition? Did that bring you some revelation, some different way of thinking?

Josh -I have more appreciation and respect for the soil, I have only started to understand how important it is for life.

ARes – Was your intention more artistic, or was there any environmental awareness approach in the project?

Josh – A little of both. It started as a curiosity. Wanting to see what was happening down there. But, by building it and sharing the videos along with instructions on how to make one, I hope others will become more aware of the importance of soil.

ARes –  Did you know that half of the waste produced in Brazil is organic (food waste, for example)? And that your work could be inspiring for many people, even thinking about food composting campaigns?

Josh – I did not know. There is so much waste in the world, and many of us are very disconnected of it. Until recently I never questioned where all of my trash goes. I recently started asking people around me if they know where it goes, I don’t think anyone does, unless they work with trash/waste materials!

ARes – Do you think understanding life under the earth can lead people to take better care of the environment and the planet?

Josh – I think making information (whether written, visual, audio, etc.) available is always a good first step. I recently read a short book “Beyond Ecophobia“, which talks about the importance of meaningful education and the involvement of kids in their communities. Maybe we could show them what natural soil life is like, compared with soil life that is contaminated with local trash?

ARes –  Would you like to shoot other things decaying?

Josh – The project continues to run and every day I watch a new video of what’s going on underground. In a few weeks I should have a much higher resolution video released showing much more detail. After the winter here in Michigan I hope to start a year (or two)-long project capturing videos of the life cycle of a leaf.

ARes –  What is your favorite video? How long did it take you to produce?

Josh – Probably this one:

It’s about 34 days of footage captured. I like that you can see various stages of the leaf decomposition, while at the same time you see new roots from different plants extending down into the earth. As one leaf dies, thousands of other small creatures are supported by it. It’s so amazing! It’s also one of the first videos from this project, it was very surprising.

ARes –  What is your profession? Where do you live now?

Josh – I help run a MakerSpace in Ann Arbor, MI called Maker Works (http://www.maker-works.com). I help to connect people with tools and the space to work on them. It is a wonderful community of people who like to make things and help others through making.

More: http://soilcam.blogspot.com.br/