Artigo científico compara gestão de resíduos em 20 cidades

David C. Wilson, Ljiljana Rodic, Anne Scheinberg, Costas A. Velis e Graham Alabaster receberam o prêmio Waste Management &Research – WM&R Best Paper por seu artigo “Comparative Analysis Of Solid Waste Management In 20 Cities” (“Análise comparativa da gestão de resíduos sólidos em 20 cidades”), publicado pela WM&R, revista científica oficial da ISWA, em 2012.

O artigo foi escolhido pela equipe editorial da WM&R Editorial Team por sua contribuição para com o atual Fator de Impacto, com base em citações e na qualidade da pesquisa. O prêmio também é selecionado pela equipe editorial da WM&R e concedido no Congresso Mundial da ISWA.

Como resultado das sugestões de David et al, agora o premiado artigo está disponível gratuitamente para download no site da WM&R (http://wmr.sagepub.com/), no qual também será criada uma coleção de artigos premiados. Veja a seguir a entrevista com David Wilson.

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Abstract do artigo premiado

O presente artigo utiliza a “lente” da gestão integrada e sustentável (ISWM) para analisar o novo conjunto de dados compilado acerca de 20 cidades em seis continentes para a publicação-mestra da UN-Habitat Solid Waste Management in the World’s Cities (Gestão de Resíduos Sólidos nas Cidades do Mundo). A análise comparativa trata, primeiramente, das taxas de geração de resíduos e dos dados de composição destes. Um diagrama de fluxo do processo foi preparado para cada cidade, para que sirva de poderosa ferramenta para representar o sistema de resíduos sólidos como um todo de uma maneira abrangente, porém concisa. Indicadores de benchmark são apresentados e comparados para os três principais componentes/fatores físicos: saúde pública e coleta; meio ambiente e disposição; e recuperação de recursos – e para três estratégias de governança exigidas para produzir um sistema da ISWM eficiente: inclusividade; sustentabilidade financeira; e instituições sólidas e políticas proativas. Os principais entendimentos incluem a variedade e a diversidade de modelos bem-sucedidos, ao contrário do modelo de “tamanho universal” (one size fits all); a necessidade de dados bons e confiáveis; a importância de focar-se na governança, assim como na tecnologia; e a necessidade de construir sobre as vantagens já existentes na cidade. Um exemplo deste último é o papel crítico do setor informal nas cidades de vários países em desenvolvimento: ele não apenas produz taxas de reciclagem comparáveis com os modernos sistemas ocidentais, mas também economiza milhões de dólares para as autoridades municipais ao evitar custos com coleta de lixo e descarte. O resultado é a oportunidade para soluções ganha-ganha, desde que os desafios de maior porte relacionados possam ser enfrentados.

Foi um artigo ambicioso. Poderia nos contar o que o levou a escrevê-lo?

David C. Wilson: A UN-Habitat decidiu focar o seu terceiro Relatório Mundial Sobre a Água e o Saneamento nas Cidades do Mundo no tema Gestão de Resíduos Sólidos. Um grupo de mais de 30 profissionais de todas as partes do mundo se reuniu com a missão de preparar um documento de diretrizes que fosse definitivo. Mas, logo na nossa primeira reunião, nós identificamos que um dos maiores problemas era a ausência de uma base sólida de evidências que permitisse comparar as cidades de uma forma consistente. Por isso, a chefe do projeto, Anne Scheinberg, convenceu a UN-Habitat de que deveríamos ir atrás de dados reais de 20 cidades. Logo após a publicação do livro da Habitat, os três autores-chefes fizeram a análise dos dados e trouxeram Costas Velis para ajudar, em particular, na análise estatística.

Vocês apresentaram muitos dados. Como conseguiram determinar a confiabilidade desses dados e a sua comparabilidade entre 20 cidades tão diferentes entre si?

David C. Wilson: A qualidade e a disponibilidade de dados são historicamente ruins no setor de resíduos sólidos, o que nos levou a dedicar muito esforço nessa parte. Fomos atrás de dados em todo o sistema de gestão de resíduos de cada cidade, olhando não apenas o sistema formal, mas também todas as atividades informais, e não apenas os componentes físicos, mas também os aspectos da governança. Coletamos os dados mais próximos possíveis do campo, utilizando geradores de perfis familiares à cidade e documentando cuidadosamente o processo. Nós confrontamos as fontes de dados existentes e entrevistamos os principais atores, tanto para preencher as lacunas como para estimar as informações qualitativas necessárias para avaliar a maioria dos indicadores. O enfoque da metodologia enfatizou a rastreabilidade e a triangulação, já que não era possível alcançar uma confiabilidade absoluta. O uso de um diagrama de fluxo de materiais foi crucial para assegurar que os dados físicos fossem completos e consistentes e que todos os fluxos de dados estivessem balanceados. Uma das autoras [Ljiljana Rodic] atuou como coordenadora da pesquisa, revisando os perfis preliminares das cidades e garantindo uma interpretação comum entre os geradores de perfis, o que foi um passo necessário para garantir a comparabilidade.

Depois da publicação do artigo, em março de 2012, vocês têm feito algum acompanhamento?

David C. Wilson: Sim. Parte do trabalho inicial focava em aplicar a mesma metodologia a outras cidades, o que levou, por exemplo, aos artigos da WM&R sobre o Bahrein (DOI: 10.1177/0734242X12441962), Bishkek (DOI: 10.1177/0734242X13499813) e Lahore (DOI: 10.1177/0734242X14545373). A metodologia foi aprimorada para os indicadores de benchmark Wasteaware (DOI: 10.1016/j.wasman.2014.10.006). Esses agora foram aplicados em mais de 40 cidades, e um novo artigo, mais estatístico, está em preparação. Alguns dos autores também têm acompanhado outros artigos da WM&R em aspectos específicos abordados no artigo original. Por exemplo, Costas Velis e eu apresentamos uma estrutura para integração dos setores formal e informal de resíduos sólidos (DOI: 10.1177/0734242X12454934), enquanto Ljiljana Rodic analisou o potencial de recuperação de nutrientes dos resíduos urbanos com base nos indicadores do benchmark (DOI:10.1016/j.wasman.2015.07.033). Anne Scheinberg usou dados das 20 cidades originais para propor estruturas de reciclagem que analisassem o desempenho da [atividade de] reciclagem (DOI: 10.1177/0734242X15600050).

Que conselho você daria aos leitores interessados em avaliar o desempenho do sistema de gestão de resíduos sólidos de uma cidade?

David C. Wilson: Vão em frente! Criem coragem, entrem em campo e conversem com os atores. Nós cremos que os indicadores de benchmark Wasteaware dão uma base consistente para a avaliação do desempenho do sistema de gestão de resíduos sólidos de uma cidade, facilitando o benchmarking para com cidades similares e focando rapidamente a atenção nos principais aspectos que requerem outras melhorias. Junto com o artigo citado acima, um manual do usuário foi publicado como material complementar e estamos buscando apoio para compilar um banco de dados de todos os perfis de cidades preparados, usando os indicadores. Por isso, POR FAVOR, usem os indicadores Wasteaware e busquem orientação e/ou mandem uma cópia dos seus resultados para mim, David Wilson, pelo e-mail waste@davidcwilson.com ou para Costas Velis, pelo endereço eletrônico c.velis@leeds.ac.uk, para alimentar futuros artigos comparativos.

Qual é a mensagem mais importante que você deseja que os leitores da WM&R tirem desse artigo?

David C. Wilson: Escolher uma só mensagem é difícil! Perguntei aos meus coautores e cada um focou numa mensagem diferente. A minha é que soluções sustentáveis exigem um foco nos aspectos de governança, junto com os componentes físicos. A mensagem de Ljiljana Rodic é que uma troca entre a comunidade científica e os profissionais de resíduos, tanto formais como informais, pode exigir um pouco de coragem (dos dois lados!), mas pode ser muito gratificante e produtivo para melhorar o desempenho dos sistemas de gestão de resíduos sólidos. A mensagem de Anne Scheinberg diz que construir um aterro sanitário é uma má escolha, se não houver chance de pagar os custos de operação. Já Costas Velis pede que vocês utilizem os indicadores Wasteaware, de modo que possamos construir o banco de dados sobre mais cidades e, assim, fazer uma análise estatística apropriada do desempenho dos sistemas de gestão de resíduos sólidos em todo o mundo.

Para vocês, foi uma surpresa ganhar o Prêmio WM&R Best Paper 2015?

David C. Wilson: Por ter sido a primeira vez que essa premiação foi realizada, foi uma total surpresa. Como o critério se baseava na maior quantidade de citações, ganhar o prêmio foi muito gratificante!

O que mais agradou na promoção que o artigo recebeu como resultado do prêmio? Como, em sua opinião, o artigo de vocês poderia ganhar maior visibilidade?

David C. Wilson: A parte mais importante de vencer um prêmio de publicação é que, geralmente, a editora disponibiliza o artigo gratuitamente para download, o que é muito importante em se tratando de um artigo destinado aos países em desenvolvimento, pois ele se torna visível e disponível para um público muito maior. Outra sugestão seria que a WM&R criasse uma página dedicada no site para cada artigo premiado, porque aumentaria a visibilidade. [Entrevista publicada na Edição 5 da Revista ARes]